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Enquanto o sol não vem

Por: Lucas Procópio
17/07/2009

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Jaoui realiza esta pequena e divertidíssima obra-prima''

A primeira cena de Enquanto o Sol Não Vem é uma pequena síntese da trama que está por vir: está chovendo, dois homens discutem um assunto sério enquanto um deles fuma um baseado.
O roteiro não espera o espectador para começar a contar sua história, já existe uma situação estabelecida, e só vamos entende-la ao longo da metragem, quando personagens e suas relações são reveladas. A forma como essas revelações acontecem, sem mudança de clima ou alardes é prova da sutileza e do talento de Agnès Jaoui. Assim como nos outros dois longas da roteirista-diretora (O Gosto dos Outros e Como Uma Imagem), o foco é justamente o que acontece quando pessoas distintas se cruzam aleatoriamente.

Os dois homens conversando na chuva são Michel (Jean-Pierre Bacri) e Karim (Jamel Debbouze), dois amigos que pretendem realizar uma série de documentários sobre mulheres fortes e independentes. Karim é filho de Mimouna (Mimouna Hadji), imigrante e mãe solteira que sempre trabalhou para a família de Florence (Pascale Arbillot), que juntamente com sua irmã Agathe (Agnès Jaoui), são os xodós da velha senhora - embora exista entre as duas irmãs, um antigo ressentimento.

Agathe está de volta a antiga propriedade da família. Ela é uma bem-sucedida escritora que está ingressando na política e tem uma posição claramente feminista quanto a isso... ou não.
Por intermédio da mãe, Karim conhece Agathe e sugere a Michel que façam um documentário sobre ela. Agathe aceita.

Em seu terceiro filme, Jaoui demonstra uma maturidade excepcional e usa elementos dos dois longas anteriores para construir essa inteligentíssima análise.

Na frente da câmera de Karim e Michel, Agathe é vista como uma feminista, uma mulher amarga e controladora. Fora do foco dos dois, ela se mostra uma mulher que passa por um eterno dilema. Aos olhos de Agathe, Michel é um "banana" e Karim é um grosseirão preconceituoso.
O roteiro vai mais além em sua inteligência: cria para cada um dos três protagonistas, uma relação com um coadjuvante, o que nos revela a densidade e até a ambiguidade de cada um.
Agathe mostra, através de sua relação conjugal, seus questionamentos enquanto mulher, uma vez que seu marido se queixa de sua ausência e falta de atenção.

Karim testa os limites de sua grosseira com uma sensível garçonete.

Michel revela-se um pai carente, que vê no filho os últimos resquícios de seu casamento.
Enquanto isso, outros temas são abordados através da relação com coadjuvantes iniciais e isso vai gerando as mais diversas e inusitadas situações que ao público surgem como aleatórias, mas que são escolhidas a dedo e calculadas milimetricamente por Jaoui que cria para cada situação diálogos que, calcados no humor, colocam suas idéias em confronto e as levam até a resolução - mesmo que tal resolução não exista.

Jaoui ainda consegue fazer com que cada personagem seja protagonista de sua própria história, o que impossibilita a eleição de um personagem principal, todos são necessários para a trama e todos tem sua exigüidade muito bem estruturada. Não é diferente na direção, Jaoui é excelente na hora de dirigir atores e ela mesma, como atriz, é fantástica.

Juntando o elenco, maravilhoso, com o timing da direção, temos cenas genuinamente hilariantes. E mesmo que os personagens sejam colocados em situações constrangedoras, Jaoui nunca os deixa cair no ridículo, apenas usa o humor para revelar a fragilidade de cada um e também a fragilidade dos ideais. Ainda que sejam discutidas, a diretora faz questão de evidenciar como opiniões formadas e tratadas com seriedade podem ser facilmente desestabilizadas por um simples balido de ovelha.

Em determinada cena, durante a gravação de um depoimento de Agathe, Karim e Michel percebem que por trás dela há uma planta em formato de coroa que a faz parecer líder de tribo indígena. Logo pedem para que o marido, que apenas observava a mulher, segurar a planta para não aparecer no frame.

Há dois motivos para a inserção de cenas como essa: dar uma dose de niilismo a seriedade com que os assuntos são tratados mas também mascarar as alegorias com humor. Existe por trás do balido da ovelha, da planta "coroa" e de cada um dos outros elementos piadistas, um significado que os transforma em alegorias visuais. E, a escolha em mascarar tais elementos com o humor é o que torna Enquanto o Sol Não Vem tão divertido e inteligível. Um filme para todo tipo de público, mas que não se deixa sabotar pelo desejo de agradar o espectador que busca apenas entretenimento. A complexidade está ali para aqueles que desejam ve-la através de uma reflexão mais aprofundada, mas sim, o carater niilista predomina.

E nada poderia ser mais coerente do que dois homens discutindo seriamente, debaixo de chuva, enquanto um fuma um baseado. E atendendo com perfeição e exatidão sua proposta que Jaoui realiza esta pequena e divertidíssima obra-prima. O restante é lucro... e que lucro.




Xcímetro (Excelente)
Enquanto o sol não vem
(Parlez-moi de La Pluie, 2008)
Gênero: Comédia - Drama
Duração: 110 min
Origem: França
Estúdio: Pandora Filmes
Direção: Agnès Jaoui
Roteiro: Jean-Pierre Bacri, Agnès Jaoui
Produção: ---
Estréia: 17/07/2009 (Brasil)

Sinopse:

Agathe Villanova (Agnes Jaoui) é uma feminista que ocupa certa colocação de prestígio na cena política. Ela retorna para casa no Sul da França após uma viagem que durou dez dias, onde ajuda sua irmã Florence (Pascale Arbillot) a cuidar da mãe. Florence vive com o marido, os filhos e Mimouna (Mimouna Hadji), a empregada que veio à França com sua família quando saíram da Argélia. Enquanto isso, o filho de Mimouna, Karim (Jamel Debbouze), e seu amigo Michel Ronsard (Jean-Pierre Bacri) decidem fazer um documentário sobre Agathe para uma série de filmes sobre mulheres bem-sucedidas.

Elenco:

Jean-Pierre Bacri Michel Ronsard
Jamel Debbouze Karim
Agnès Jaoui Agathe Villanova
Pascale Arbillot Florence
Guillaume De Tonquedec Stéphane

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