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Horas de Verão

Por: Valéria Miguez
03/07/2009

''
Onde existe morte, existe também ressurreição (Olivier Assayas)''


Antes, quero falar de um tipo de abandono. Em relação aos familiares mais velhos. Em só visitá-los em datas ditadas pela sociedade. Por mais afazeres, compromissos... querendo, encontrará um espaço na agenda para uma visita fora das datas de praxe: aniversário, Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais... Nem sempre, há cobranças por parte deles, mas com certeza lhes agradaria serem mais visitados. Como no caso da personagem de 'Horas de Verão'. Vendo Hélene (Edith Scob) acenar para a família na despedida após o almoço dos seus 75º aniversário, bateu uma tristeza. Eles tinham pressa de irem embora. E isso é algo tão comum, e no mundo real. Mas o foco do filme é na partilha dos seus bens entre seus filhos.

Hélene, como a pressentir que estaria perto do fim, aproveitou essa reunião para conversar com o seu filho mais velho, Fredéric (Charles Berling). O único, dos três filhos, que ainda mora na França. Pedir a ele que cuidasse da partilha dos bens. Ela sabia que após a sua morte, a casa seria vendida. Como tudo mais de valor dentro dela. Ciente do valor de alguns bens, ela lhe deu um inventário particular. Os valores sentimentais dos objetos sendo expostos.

Era como se Hélene só esperasse por um livro onde catalogou as obras de um tio, o pintor Paul Bertier. Chegou a ir a uma das conferências, e se foi. Como disse ainda no seu aniversário, à empregada já idosa: que com ela iriam apenas as emoções, as histórias, os segredos... E é mesmo o que levamos. Sem saber, o que ficará de nós naqueles que continuam vivos. Em muitas histórias familiares, quando um idoso morre, com ele também se vai o único laço que unia os outros familiares.

Não se pode mesmo interferir na vida adulta dos filhos. Pois cada um precisa construir a sua história. Hélene viveu a sua. Ela tratou apenas de resguardar uma quantia para sua serviçal. Os filhos, como herdeiros legítimos, que cuidassem do inventário oficial. Para diminuir o valor do inventário, buscaram por um Museu, o d'Orsay. Outro ponto interessante nessa história. Conhecer um pouco o trabalho nos bastidores de um museu: aquisição do acervo, restauração das obras...
Seus outros dois filhos, eram:
- Adrienne (uma Juliette Binoche loira), uma Designer. Morava em Nova York. Não tinha filhos.
- Jerémie (Jerémie Renier), um empresário que estava sentando base na China. Por conta dos salários baixos pagos por lá.

Fredéric foi voto vencido em não querer vender a chácara da família. Pois seus irmãos queriam vender tudo, e rápido. Adrienne não quis o jogo de chá, em porcelana que sua mãe, em vida, disse que seria dela. Além da bandeja de prata, ficou com um bule de prata. Algo que Hélene falou que ela não gostaria por ser uma obra de arte. Por Adrienne gostar de um designe moderno. No qual ela rebateu. Gostava do funcional.

Paralelo ao inventário, Fredéric está tendo trabalho com a filha adolescente. Uma rebelde sem causa. Como também, em defender suas ideias lançadas num livro. Sobre política econômica. Talvez, por isso, não contestou seus irmãos. Dos três, era o mais apegado a chácara, os quadros, os objetos... Por ele, tudo continuaria em família. Como estava até antes da mãe falecer.

O filme é de uma simplicidade ímpar no contar, em mostrar uma história comum. Mesmo contendo objetos valiosos, como herança, ela é igual a tantas outras. A mim, me fez lembrar de muitas cenas reais. Por ter me identificado tanto, que eu amei 'Horas de Verão'. Mas o filme é para um público mais seleto. Daqueles que gostam de ouvir histórias da família, em reuniões em torno de uma mesa. Uma pena! Mas até nisso o Diretor, Olivier Assayas, pensou. Está no final do filme. Desse excelente filme!




Xcímetro (Excelente)

Horas de Verão

Por: Lucas Procópio
11/07/2009

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arrebatadora obra-prima''


Na primeira cena de Horas de Verão, novo filme de Olivier Assayas, várias crianças em distintas fases da infância, correm pelo imenso jardim da casa da avó atrás de um tesouro. Elas encontram uma pista, é um papel com uma mensagem escrita com tinta invisível.
Essa é a síntese da trama que está por vir.

Segundo a analogia de Assayas, as crianças são os irmãos Adrienne, Frédéric e Jérémie e o tesouro em questão é a herança que a mãe Hélène (a maravilhosa Edith Scob) deixará após sua morte. É um sem fim de obras de arte do já falecido tio, um famoso pintor, os móveis e a casa.

E o fato da tinta ser invisível fazendo com que a mensagem seja indecifrável é simboliza justamente a indecisão do que fazer com o tesouro.

Todos estão reunidos para comemorar o aniversário de 75 anos da matriarca que persegue os filhos o tempo todo falando-lhes da herança e de seu fim que acredita ela estar próximo. E realmente está. Pouco tempo depois, Hélène morre e aí Assayas nos apresenta o conflito: o que os três irmãos devem fazer com a herança.

Adrienne (a sempre linda e maravilhosa Juliette Binoche) é uma designer instalada em Nova York, não pretende voltar para a França e nem o dinheiro nem as obras lhes são interessantes. Jérémie (Jérémie Renier) tem uma família constituída e reside na China devido ao trabalho. Depois da morte da mãe, não lhe resta mais nenhuma raíz na França e o dinheiro que conseguiria com a venda da fortuna lhe seria muito útil.

Contra os dois irmãos que são a favor da venda, está Frédéric (Charlie Berling), o mais velho, que reside na França e nutre um sentimento de apego ao que sua mãe deixou. Frédéric enxerga ali toda a história de sua família, de sua mãe, os sentimentos de sua infância e gostaria de manter tudo isso para seus filhos e as futuras gerações da família.

Mas Frédéric é a minoria e não tem argumentos consistentes para convencer os irmãos do contrário - uma vez que a própria mãe encorajava a venda - e acaba tendo de encarar que seu plano de preservar as lembranças da família, será, enfim, destruído pelo que é mais justo e coerente.

Assayas faz um interessante questionamento, afinal, são apenas objetos, apenas uma casa em ruínas, apenas um mobiliário que pode ser transformado em dinheiro e facilitar a vida dos irmãos. Mas são os únicos resquícios de uma família que está evanescendo, se distanciando. Aquela é a representação do que une os três irmãos e guarda as emoções vividas ali.

A angústia de Frédéric é ter de aceitar o fim, ter de ver que sentimentos serão mutilados e transformados em dinheiro, ver que o único significado que dá aos objetos e à casa, será esquecido, transformando-os em peças cujo único sentido é o valor comercial e estético.

É como em determinada cena a empregada Éloïse diz a Frédéric enquanto coloca flores dentro de um dos vasos da coleção: - "Vasos sem flores era como a morte para sua mãe".

E Assayas constata isso quando, já à venda em uma exposição, um grupo de interessados é guiado através das obras. Diante de uma mesa, enquanto o grupo a observa, um rapaz se distancia e atende o celular e conversa rapidamente sobre sair logo dali. O paralelo é completado quando logo depois entra em cena Frédéric e sua esposa observando os objetos através de uma ótica totalmente diferente, dando verdadeiro sentido à eles.

Através da ágil e inteligente câmera de Assayas observamos o triste processo de aceitação que Frédéric passa. Aceitar que a finitude, a perplexidade ao ver que aquilo que continha momentos, sentimentos e lembranças de uma família é descartável.

Mas tudo é um ciclo, se no início a casa tinha crianças procurando um tesouro escondido, agora a casa é repleta de adolescentes festejando, mesmo que inconscientemente, o fim. Tendo de enfrentar o fato de não haverá mais caças ao tesouro, uma vez que o tesouro já foi encontrado e desfeito.

O que lhes resta fazer, como uma prova de maturidade, Assayas nos mostra no último take dessa arrebatadora obra-prima.



Xcímetro (Excelente)
Horas de Verão
(L'heure d'été, 2008)
Gênero: Drama
Duração: 103 min
Origem: França
Estúdio: ---
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas
Produção: ---
Estréia: 05/03/2008 (França) 03/07/2009 (Brasil)

Sinopse:

Adrienne, Frédéric e Jérémie têm diferentes visões de mundo. Com a morte da mãe, os irmãos se encontram de novo. Em meio à obra do tio, o excepcional pintor do século XIX Paul Berthier, preservada pela mãe, eles são apresentados às texturas e lembranças do final da infância, às memórias partilhadas, criando uma visão única do futuro.

Elenco:

Juliette Binoche Adrienne
Charles Berling Frédéric
Jérémie Renier Jérémie
Edith Scob Hélène
Dominique Reymond Lisa



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